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SALPICOS DA VIDA

Cores, retalhos, pontos, momentos e emoções que vão acontecendo no tempo e na vida.

SALPICOS DA VIDA

Cores, retalhos, pontos, momentos e emoções que vão acontecendo no tempo e na vida.

Qua | 01.04.20

Alguma coisa vai acontecer

Maria

    Esta casa já esteve cheia. Uma casa que foi e continua a ser o nosso lar, o nosso lugar neste mundo, não importa onde estejamos. Três gerações conviveram nesta casa. Os filhos a brincar e a crescer, os pais sempre apressados, atarefados com as saídas para o trabalho, os sonhos por realizar, as contas para pagar, a falta de tempo, as preocupações com os filhos e a presença tranquila dos avós, o nosso porto seguro, a sabedoria que ficava na retaguarda a amparar, a ajudar e a encontrar soluções. Era perfeito, nós não sabíamos.

    O tempo passou, os filhos cresceram, saíram de casa e foram para longe, tão longe. Os avós são agora anjos que nos guardam e os pais estão a ficar velhos e sós.

    Há aquele acontecimento maravilhoso que são as férias, ansiadas durante o ano inteiro e quando finalmente acontecem, dá-se uma explosão de alegria porque nos voltamos a reunir. É uma felicidade imensa fazer coisas em conjunto, podermos falar, partilhar memórias ou simplesmente estarmos bem porque estamos juntos. Nas tardes pachorrentas de verão, acompanhados por uma bebida fresquinha é fácil abrir a alma e partilhar sonhos e preocupações. Numa dessas tardes do verão passado, falando sobre a nossa forma de vida e dos males da humanidade, dizia-me um dos meus filhos:

- Sabes mãe, o mundo não vai continuar assim por muito tempo, não pode, alguma coisa vai acontecer e não vai ser bom.

    As férias acabaram, nós voltámos às nossas rotinas e eles lá foram, para tão longe. Fiquei a matutar na nossa conversa, a sentir uma preocupação maior do que gostaria e a pensar, e se acontecer mesmo alguma coisa? Uma guerra, uma tragédia ambiental. E se não se puder viajar? Estão tão longe. Eu posso nunca mais ver os meus filhos.

    Passaram alguns meses e para minha aflição a coisa está a acontecer. Começou longe, pensámos que ficaria por lá, mas depressa foi avançando e agora envolve o mundo numa nuvem de perigo e de pânico. Um medo tão grande que nos faz olhar com desconfiança qualquer um que se aproxime. Viajar? Nem pensar em tal coisa, não há possibilidade e não se sabe até quando. Mas eles continuam tão longe e a saudade é imensa. Neste momento só posso pedir aos nossos anjos que cuidem de nós, continuar com doces sonhos de tardes quentes de verão, bebidas frescas e conversas preguiçosas, com a esperança de que um dia possam acontecer.