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SALPICOS DA VIDA

Cores, retalhos, pontos, momentos e emoções que vão acontecendo no tempo e na vida.

SALPICOS DA VIDA

Cores, retalhos, pontos, momentos e emoções que vão acontecendo no tempo e na vida.

Qua | 08.04.20

Homenagem à Minha Avó

Maria

Lembro-me bem dela. Chamava-se Quitéria, sempre aprumada e decidida. Usava um carrapito de cabelos grisalhos e quase sempre o lenço atado ao pescoço. Tinha a passada rápida, o olhar directo que parecia ver para além do que lhe queríamos mostrar. Vestia-se de cinzento, sempre com um grande avental engomado. Era uma pessoa diferente. Os outros pediam-lhe conselhos, respeitavam-na e temiam-na. Quando era criança, as meninas não iam à escola, muito menos as meninas que viviam no meio da serra. Mas ela aprendeu a ler. Sozinha! Contou-me que guardava os jornais que vinham a embrulhar as compras, depois perguntava aos rapazes que iam à escola o nome das letras e começou a juntar os sons. Foi assim que aprendeu e a partir daí leu tudo o que apanhou a jeito. Foi especial.

Recordo-a a cuidar das suas flores, dos lindos jardins que deixou pelos locais onde permaneceu. Todas as plantas tinham um nome, uma história, uma utilidade. Eram também a sua farmácia. Parte do seu dia era dedicada aos cuidados com o jardim. Com a rega, a monda, a apanha das sementes, as plantinhas novas e o arranjo constante da terra, com as mãos nuas, enrugadas, sensíveis.   Aquelas mãos tinham amor. Lá andava ela, com um chapéu de palha enorme, a guiar rebentos, a apanhar folhas secas, a admirar tanta beleza e a inebriar-se com os perfumes das flores. Atrevo-me a pensar que fui mais uma das flores do seu jardim. A minha infância ficou repartida pelas estações do ano, o adormecer e o acordar da natureza. Nos dias frios ficávamos na cozinha, junto do fogo. A chocolateira de cobre tinha sempre água quente. Em cima da trempe de ferro aparecia uma frigideira velha, preta de tanto uso. Então com as mãos trémulas, a minha avó punha azeite, cebola às rodelas, depois as batatas cozidas que tinham sobrado do almoço, cortadas fininhas e por fim envolvia tudo com ovos. Que cheirinho! Era um petisco só nosso, temperado com o sabor da ternura, tão delicioso que ainda me faz crescer água na boca. Depois vinha a caneca do chocolate quente. Tudo isto era feito com lentidão, gestos calmos de mãos sábias. Então eu pedia:

- Avó, conta-me uma história.

Ela sorria, com um sorriso doce na boca já sem dentes, olhar brilhante e respondia:

- Qual? Já te contei todas.

Confortada com o calor do fogo, aconchegava-me na cadeirinha de palha e o entardecer, ao som da sua voz cadenciada, envolvia-nos com a magia de Era uma vez... Eram princesas, fadas e rainhas, um mundo de sonho para onde era transportada pelo poder da imaginação. Tantas e tantas histórias, o Toiro Azul, o João de Calais,  O Menino Guilherme e o Seu Cão Piloto,  Os Meninos da Estrela de Oiro na Testa,  a Branca Flor e outras que agora recordo com carinho e saudade.

Numa tarde solarenga de Primavera pegou-me pela mão e disse:

- Hoje vamos dar um passeio.

E lá fomos andando pelo rego que trazia a água da ribeira até às hortas. Quando chegámos à ribeira chamou-me a atenção para as paredes de pedra que já tinham sido uma casa. Era quase só um amontoado de pedras e estava tudo cheio de silvas. O ambiente era verde, com lucernas da luz do sol por entre as folhas dos amieiros e dos plátanos. Ouvia-se o som  da água da ribeira a saltitar por entre as pedras polidas e a brisa a passar nas folhas. O nosso silêncio foi interrompido pela voz da minha avó:

- Sabes o que era um Pisão? Aqui na ribeira havia muitos. Pareciam dois braços grandes de madeira e com a força da água, batiam, batiam nos tecidos de lã. As mantas vinham dos teares ralinhos, pareciam uma rede, eram pisadas no Pisão, com azeite e água,   depois com greda e água quente para lavar. Ficavam limpas, grossas e quentinhas. Também havia um tecido que era pisado e lavado no Pisão. Chamava-se soriano e servia para fazer roupas quentinhas, calças, casacos e saias.  

Fiquei a imaginar como seriam os Pisões e o barulho que faziam a bater nos tecidos, de forma ritmada, com os seus dois braços. Ela continuou:

- Aqui havia um Pisão e nesta casa morou uma rapariga com uma história muito triste, era a Louca dos Pisões.

Sentámo-nos numa pedra grande e a brincar com as mãos na água preparei-me para ouvir a voz cadenciada da minha avó a contar a história da Rosa. Era uma rapariga pobre, linda como os anjos, que se apaixonou pelo José, seu vizinho. Os dois juraram amor eterno, mas não quis o destino que assim fosse. O José vivia com umas tias solteironas, beatas, mas de posses. Entenderam elas que o sobrinho havia de ser padre e mandaram-no para o seminário. O José prometeu à Rosa que nunca chegaria a ser padre e voltaria para ela. Mas foi padre e a Rosa ficou louca com o desgosto. Para sempre ficou à espera que o seu Zé cumprisse a promessa. Conta-se que cada vez que um homem passava pela estrada, mal o avistava, a Rosa corria feliz a dizer:

- Vem aí o meu Zé.

Mas logo que o engano se desfazia, murmurava cheia de desgosto:

- Ai, não é.

Foi uma história comovente e triste que nos trouxe melancolia no regresso a casa.

Um dia estávamos as duas a cuidar das plantas, com as mãos metidas na terra húmida, quando ela me explicou a diferença entre os Brincos de Princesa e Brincos de Rainha. Fui então surpreendida com a fase:

- Sabes? Eu já vi uma rainha.

Naquele nosso mundo povoado de reis e rainhas, fadas e princesas, pensei que era mais uma história. Mas não era assim.

- Pois é minha menina, vi uma rainha de verdade, de carne e osso. Chamava-se Amélia, era muito bonita e com ela vinha um homem muito gordo que era o rei. Passaram ali na Alcaria montados nuns cavalos e foram até ao Correpito. Era tanta gente, ricos e finos, vestidos com roupas que as pessoas daqui nunca tinham visto. O povo veio de longe para os ver passar. Uma mulher atirou uma hortense à rainha, ela apanhou-a no ar, agradeceu com a cabeça e colocou-a debaixo do rabo.

Na minha memória ficou a imagem de uma rainha que não devia ser lá muito bem-educada.

Eram assim os nossos dias, as nossas tardes. Momentos de magia onde o imaginário se expandiu para dimensões novas e fabulosas. A minha avó deu-me uma infância feliz, ajudou a construir tudo aquilo que sou.

- Onde quer que estejas avó, quero que saibas que permaneces nas histórias que me contaste e nos momentos em que as partilho com os mais novos.

Barranco dos Pisões.png

 

 

Dom | 05.04.20

Domingo de Ramos

Maria

     Domingo de Ramos é memória do cheiro a rosmaninho florido e alecrim, encontro com a família e a festa dos ramos. Fazíamos contratos entrelaçando os dedos mindinhos.

     “Contratos, contratos,

      Contratos faremos,

      Sábado Aleluia desmancharemos.

      – Olha para o céu!

      Era a senha e quem ganhasse, ganhava o saco das amêndoas no Domingo de Páscoa.

      Domingo de Ramos era o dia de pedir palmitos das palmas bentas que acompanharam a procissão e com eles fazíamos castelinhos para guardar amêndoas. Também os levávamos para casa e ficavam guardados como relíquias protetoras. Nos dias de trovoada, queimavam-se na lareira e rezava-se a Santa Bárbara, para que afastasse os trovões e o medo.

     “Santa Bárbara Bendita

      Que no céu está escrita,

      Com raminhos de água benta,

      Livrai-nos desta tormenta”. 

      E a trovoada afastava-se enquanto a devoção e a tranquilidade nos enchiam o coração.

      Hoje é Domingo de Ramos, não houve procissão, não houve bênção das palmas. Assistiu-se à missa pela televisão ou internet, cada um na sua casa.  

      A Fé não se explica nem discute, sente-se. Os tempos e as tradições mudam, tal como as circunstâncias da vida, mas a Fé mantém-se. Foi o dia da festa dos ramos e abre-se o portal para a Semana Santa. Depois da entrada triunfante em Jerusalém, Jesus foi traído, julgado e condenado à morte. E tudo aceitou por amor. É um tempo de reflexão e de introspeção, porque nós, peregrinos neste Mundo, fazemos parte de uma sociedade volúvel que num dia reverencia e no outro condena.

       Isolada no meu lar, celebro a Semana Santa, partilhando a esperança na redenção e no afastamento de todo o mal que nos aflige.

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Qua | 01.04.20

Alguma coisa vai acontecer

Maria

    Esta casa já esteve cheia. Uma casa que foi e continua a ser o nosso lar, o nosso lugar neste mundo, não importa onde estejamos. Três gerações conviveram nesta casa. Os filhos a brincar e a crescer, os pais sempre apressados, atarefados com as saídas para o trabalho, os sonhos por realizar, as contas para pagar, a falta de tempo, as preocupações com os filhos e a presença tranquila dos avós, o nosso porto seguro, a sabedoria que ficava na retaguarda a amparar, a ajudar e a encontrar soluções. Era perfeito, nós não sabíamos.

    O tempo passou, os filhos cresceram, saíram de casa e foram para longe, tão longe. Os avós são agora anjos que nos guardam e os pais estão a ficar velhos e sós.

    Há aquele acontecimento maravilhoso que são as férias, ansiadas durante o ano inteiro e quando finalmente acontecem, dá-se uma explosão de alegria porque nos voltamos a reunir. É uma felicidade imensa fazer coisas em conjunto, podermos falar, partilhar memórias ou simplesmente estarmos bem porque estamos juntos. Nas tardes pachorrentas de verão, acompanhados por uma bebida fresquinha é fácil abrir a alma e partilhar sonhos e preocupações. Numa dessas tardes do verão passado, falando sobre a nossa forma de vida e dos males da humanidade, dizia-me um dos meus filhos:

- Sabes mãe, o mundo não vai continuar assim por muito tempo, não pode, alguma coisa vai acontecer e não vai ser bom.

    As férias acabaram, nós voltámos às nossas rotinas e eles lá foram, para tão longe. Fiquei a matutar na nossa conversa, a sentir uma preocupação maior do que gostaria e a pensar, e se acontecer mesmo alguma coisa? Uma guerra, uma tragédia ambiental. E se não se puder viajar? Estão tão longe. Eu posso nunca mais ver os meus filhos.

    Passaram alguns meses e para minha aflição a coisa está a acontecer. Começou longe, pensámos que ficaria por lá, mas depressa foi avançando e agora envolve o mundo numa nuvem de perigo e de pânico. Um medo tão grande que nos faz olhar com desconfiança qualquer um que se aproxime. Viajar? Nem pensar em tal coisa, não há possibilidade e não se sabe até quando. Mas eles continuam tão longe e a saudade é imensa. Neste momento só posso pedir aos nossos anjos que cuidem de nós, continuar com doces sonhos de tardes quentes de verão, bebidas frescas e conversas preguiçosas, com a esperança de que um dia possam acontecer.